Não, não são só cigarros. Eu tenho que resolver algumas coisas, talvez demore um pouco, talvez demore muito; não sei! Se soubesse eu falaria, juro. Que coisas? Ah, coisas de todos os tipos, coisas minhas. Você sabe. Não, isso você não quer dividir. A gente pode dividir todo o resto, mas isso eu tenho certeza de que você não quer. Agora me deixa ir ali que eu prometo que eu volto. Tento até não demorar muito agora que você pediu.
Mas eu já disse porque você não pode ir junto!
Aiai meu amor... Faz assim: faz lá um café e senta aqui que eu vou te contar um segredo.
Acontece assim: as pessoas tem crises, cada uma com a sua forma de crise e com a sua cura e loucura.
Às vezes eu preciso ficar no meu cantinho, encolhida, olhando só pro meu umbiguinho sujo.
É como se eu fosse uma criança que a mamãe chamou pra dentro porque já está ficando escuro. Se não o bicho mau pega. Eu só estou obedecendo ao chamado. Já vou indo, mamãe!
Dentro de casa o eu criança fica matutando, digerindo tudo o que vejo lá fora pela janela da minha casinha escura. Tento organizar minhas coisas, até desistir e me conformar que vai ser sempre esse "meio bagunçado". Nesse momento eu me perco na minha própria bagunça. Reencontro coisas do passado, replanejo as coisas do futuro, esqueço um pouco do presente.
Preciso me sentir um lixo perdido ali no meio do caos.
Ir fuçar onde está o lixo, recolhe-lo e fazer uma toca com todo o meu lixo.
Me esconder ali embaixo.
Me sentir parte daquilo.
Me entregar completamente ao que está velho, podre, estragado, desgastado. Me reconhecer ali.
Até perceber que eu não sou nada daquilo.
Então eu posso finalmente jogar tudo fora e deixar tudo limpinho. Com toda a certeza que outros lixos irão chegar e vão sujar e vão pesar, mas que agora eu estou leve, livre.
É por isso, meu amor, que eu preciso ir sozinha.
Aquela sujeira é toda minha - talvez sejam até as únicas coisas exclusivamente minhas - só eu posso saber o que levar embora e na hora de emergir eu só tenho força pra carregar meu próprio corpo mole, frágil, cansado e sem casca. Você pode ficar aqui e me segurar a mão quando eu precisar de um pouco mais de força pra sair daquele buraco.
Então fica aqui, com tudo que é bom e puro de mim, que eu vou ali fugir do meu bicho mau, tá bem?
O café já esfriou. Se cuida.
quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012
segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012
Romance 1.4
Puta frio do caralho.
Porque quinze graus nunca acontece no Rio de Janeiro, né? E ainda ter que ver aqueles branquelos de dentes tortos andando praticamente de short e camiseta não estava me ajudando em nada. Foi exatamente isso o que eu senti assim que me vi no aeroporto de Londres. Nada de felicidade e deslumbramento. Só frio, raiva, peso na consciência e no estômago - sim, porque, de repente, eu só pensava na gravidade e nas consequências dos meus atos. Também parecia que isso tudo havia tomado forma física no meu estômago e o fazia pesar, embrulhar e me dar outras dessas sensações terríveis.
Nossa, eu nunca odiei tanto Londres.
Eu costumava amar esse lugar, meu sonho era voltar aqui e, quando o faço, é num impulso idiota e inconsequente atrás dela. Sim, eu, que sempre me jurei que não correria atrás. Nunca. Não só corri, como voei atrás. De avião. Pra outro país em outro continente. Sem ninguém ficar sabendo.
Nossa, mas eu tava muito fodida.
A maior pergunta era: por onde começar? Sério, estamos falando de Londres. Ela podia estar em qualquer albergue, hotel, casa de algum desconhecido, dormindo na rua... E têm muitos desses todos aqui! Procurar um por um era maluquice, mas também era o que tinha pra hoje (ou sabe-se lá quanto tempo). Dei fifty pence num mapa e peguei um ônibus qualquer que me levasse para algum canto do miolo da cidade. Não tinha nenhuma moradia pra mim. Afinal, eu fui um gênio e só roubei o cartão da minha mãe pra comprar uma mochila, umas coisas pra viagem e a passagem. Nem se quer pensei em reservar alguma estadia. Eu só fiz um rombo na conta da minha mãe (e ela deve estar me odiando mais por causa disso do que por ter fugido sem explicações).
De qualquer forma, era por ali que eu acharia algum lugar pra ficar, nem que fosse um banquinho no Hyde Park. Então foi para lá mesmo que eu me mandei depois de comprar um café. Andei um pouco procurando uma vista agradável que eu pudesse admirar quando acordasse de manhã. Foi quando achei um lugarzinho não muito movimentado perto de um laguinho; bonitinho o lugar. Joguei minha mochila numa ponta de um banco e me deitei sobre ele com as costas apoiadas nela, abri o mapa e tomei uns goles de café.
A desgraça nunca tinha me dado nenhuma pista de lugares favoritos em Londres e, depois de olhar por meia hora o mapa, vi que era completamente inútil continuar naquilo. Também realizei que não dava pra dormir ali no frio. Então me levantei convicta de que arranjaria algum lugar baratinho pra ficar e, assim que pus meus pés no chão, percebi que lá longe, numa linha reta do ponto que eu estava no parque até a rua da frente, tinha um albergue! Não acredito em deus, mas na hora considerei até uma benção divina. Na dúvida em a quem agradecer, pensei em Buda. Sei lá, né... Bem que dizem que em horas de aperto todo mundo se agarra numa religião.
Conforme fui me aproximando consegui ver uma pessoa com um cabelo super estranho na escada, tranquilamente fumando um cigarrinho e brincando com a fumaça. O clima daquela cidade fazia isso com as pessoas: elas eram estranhas e fumavam. Fiquei seca por um cigarro naquele frio e desviei um pouco do meu caminho procurando onde poderia comprar um. Depois, já feliz e contente com um maço inteirinho só pra mim, fui finalmente ao albergue brincando com a minha própria fumaça, mas a pessoa que eu tinha visto de longe já nem tava mais lá.
Assim que entrei dei uma topada com um grupo de jovens alegrinhos falando uma língua estranha (eu considerei ser alemão). Daí fui até recepçãozinha e me arrependi no minuto que a atendente virou para mim. Ela tinha olhos pretos, que pareciam duas pérolas negras grandes que encaravam os meus diretamente e pareciam me ler por dentro. Com uma pele morena, um cabelo black power enrolado numa faixa e muitas, várias, lindas curvas. Me apaixonei em cinco segundos. Não sei quanto tempo levei pra retomar a consciência, mas tenho certeza que foi algo em torno de uns deprimentes dois minutos. Dois minutos encarando alguém babacamente. Sério? Ela deve ter percebido isso lendo os meus olhos -porque ela parecia ser totalmente o tipo de pessoa que fazia isso- e talvez, por esse motivo, ela disse tão rápido e secamente que eles estavam lotados. O que fez do nosso diálogo um dos mais curtos e idiotas que eu já tive na vida, mais ou menos isso:
- Sorry. No vacancy.
- Errrrrrmmmmm.... Ok, ok, alright. Ok, thanks.
Depois eu fiz questão de ficar lá, em pé, na frente do balcão encarando a mulher por mais uns segundos até ela me olhar com uma cara de total interrogação e dizer "bye?!". Aí ficou só me encarando com a mesma feição enquanto eu saia tropeçando porta afora.
Segunda vez que me sentia a pessoa mais babaca do mundo em um único dia. Great. Eu tava mandando muito bem na Inglaterra. Acendi mais um cigarro e sentei ali naquela escada mesmo, não sabia se era numa esperança de reencontrar a morena, da outra acabar passando na minha frente por um acaso ou se era só martírio por ter sido tão deplorável. De qualquer forma, eu precisava pensar em alguma outra coisa pra fazer. Um plano! Até que tomada por mais um impulso, eu voltei pra dentro do albergue, e eu ia falar com a morena. Porque alguma coisa tinha que dar certo nesse raio de cidade! Só que sem encarar a menina disse que precisava muito de algum lugar pra ficar e pedi que ela me indicasse um outro albergue num preço legal. Num sotaque muito estranho e quase que rindo da minha cara, ela falou de um lugar umas duas ruas atrás. Daí eu saí correndo com o rabo entre as pernas me jurando nunca mais entrar naquele lugar. Nope. No way. Damn... Really?!
Realmente tinha um lugar legal e baratinho numas ruas atrás. Dessa vez quem me atendeu foi um gordinho simpático -daqueles que tem cara de cozinhar bem- que me arranjou uma cama num quarto todo amarelo. Isso mesmo, amarelo, yellow. Eu entrava naquele lugar e já começava a cantarolar Coldplay. Era involuntário e depois de um tempo ficou insuportável.
Como o quarto tava vazio, não tive nem que socializar. Então só catei meu ipod, o moleskine e uma caneta num canto da mochila, arrumei minhas coisas por ali e fui pro bar do albergue mesmo. Ver se com uma boa cerveja eu conseguia pensar num plano, ou numa maneira que fosse de conseguir encontrá-la em Londres.
A nossa cidade dos sonhos e uma das maiores cidades do mundo. E ela tão pequena, nem um pouco frágil, escondida atrás de qualquer um daqueles prédios e monumentos históricos.
Agora que eu já estava ali, eu tinha que achá-la. Nem que fosse pra dizer o quanto que eu a odiava por ter me feito uma lavagem cerebral, me tirado do sério, depois sumido feito covarde e como eu sentia falta do seu corpo quente na minha cama e o seu sorriso de manhã. Merda. Mesmo fumando continuava frio pra cacete.
Nota: Romance 01 , Romance 1.2, Romance 1.3
Porque quinze graus nunca acontece no Rio de Janeiro, né? E ainda ter que ver aqueles branquelos de dentes tortos andando praticamente de short e camiseta não estava me ajudando em nada. Foi exatamente isso o que eu senti assim que me vi no aeroporto de Londres. Nada de felicidade e deslumbramento. Só frio, raiva, peso na consciência e no estômago - sim, porque, de repente, eu só pensava na gravidade e nas consequências dos meus atos. Também parecia que isso tudo havia tomado forma física no meu estômago e o fazia pesar, embrulhar e me dar outras dessas sensações terríveis.
Nossa, eu nunca odiei tanto Londres.
Eu costumava amar esse lugar, meu sonho era voltar aqui e, quando o faço, é num impulso idiota e inconsequente atrás dela. Sim, eu, que sempre me jurei que não correria atrás. Nunca. Não só corri, como voei atrás. De avião. Pra outro país em outro continente. Sem ninguém ficar sabendo.
Nossa, mas eu tava muito fodida.
A maior pergunta era: por onde começar? Sério, estamos falando de Londres. Ela podia estar em qualquer albergue, hotel, casa de algum desconhecido, dormindo na rua... E têm muitos desses todos aqui! Procurar um por um era maluquice, mas também era o que tinha pra hoje (ou sabe-se lá quanto tempo). Dei fifty pence num mapa e peguei um ônibus qualquer que me levasse para algum canto do miolo da cidade. Não tinha nenhuma moradia pra mim. Afinal, eu fui um gênio e só roubei o cartão da minha mãe pra comprar uma mochila, umas coisas pra viagem e a passagem. Nem se quer pensei em reservar alguma estadia. Eu só fiz um rombo na conta da minha mãe (e ela deve estar me odiando mais por causa disso do que por ter fugido sem explicações).
De qualquer forma, era por ali que eu acharia algum lugar pra ficar, nem que fosse um banquinho no Hyde Park. Então foi para lá mesmo que eu me mandei depois de comprar um café. Andei um pouco procurando uma vista agradável que eu pudesse admirar quando acordasse de manhã. Foi quando achei um lugarzinho não muito movimentado perto de um laguinho; bonitinho o lugar. Joguei minha mochila numa ponta de um banco e me deitei sobre ele com as costas apoiadas nela, abri o mapa e tomei uns goles de café.
A desgraça nunca tinha me dado nenhuma pista de lugares favoritos em Londres e, depois de olhar por meia hora o mapa, vi que era completamente inútil continuar naquilo. Também realizei que não dava pra dormir ali no frio. Então me levantei convicta de que arranjaria algum lugar baratinho pra ficar e, assim que pus meus pés no chão, percebi que lá longe, numa linha reta do ponto que eu estava no parque até a rua da frente, tinha um albergue! Não acredito em deus, mas na hora considerei até uma benção divina. Na dúvida em a quem agradecer, pensei em Buda. Sei lá, né... Bem que dizem que em horas de aperto todo mundo se agarra numa religião.
Conforme fui me aproximando consegui ver uma pessoa com um cabelo super estranho na escada, tranquilamente fumando um cigarrinho e brincando com a fumaça. O clima daquela cidade fazia isso com as pessoas: elas eram estranhas e fumavam. Fiquei seca por um cigarro naquele frio e desviei um pouco do meu caminho procurando onde poderia comprar um. Depois, já feliz e contente com um maço inteirinho só pra mim, fui finalmente ao albergue brincando com a minha própria fumaça, mas a pessoa que eu tinha visto de longe já nem tava mais lá.
Assim que entrei dei uma topada com um grupo de jovens alegrinhos falando uma língua estranha (eu considerei ser alemão). Daí fui até recepçãozinha e me arrependi no minuto que a atendente virou para mim. Ela tinha olhos pretos, que pareciam duas pérolas negras grandes que encaravam os meus diretamente e pareciam me ler por dentro. Com uma pele morena, um cabelo black power enrolado numa faixa e muitas, várias, lindas curvas. Me apaixonei em cinco segundos. Não sei quanto tempo levei pra retomar a consciência, mas tenho certeza que foi algo em torno de uns deprimentes dois minutos. Dois minutos encarando alguém babacamente. Sério? Ela deve ter percebido isso lendo os meus olhos -porque ela parecia ser totalmente o tipo de pessoa que fazia isso- e talvez, por esse motivo, ela disse tão rápido e secamente que eles estavam lotados. O que fez do nosso diálogo um dos mais curtos e idiotas que eu já tive na vida, mais ou menos isso:
- Sorry. No vacancy.
- Errrrrrmmmmm.... Ok, ok, alright. Ok, thanks.
Depois eu fiz questão de ficar lá, em pé, na frente do balcão encarando a mulher por mais uns segundos até ela me olhar com uma cara de total interrogação e dizer "bye?!". Aí ficou só me encarando com a mesma feição enquanto eu saia tropeçando porta afora.
Segunda vez que me sentia a pessoa mais babaca do mundo em um único dia. Great. Eu tava mandando muito bem na Inglaterra. Acendi mais um cigarro e sentei ali naquela escada mesmo, não sabia se era numa esperança de reencontrar a morena, da outra acabar passando na minha frente por um acaso ou se era só martírio por ter sido tão deplorável. De qualquer forma, eu precisava pensar em alguma outra coisa pra fazer. Um plano! Até que tomada por mais um impulso, eu voltei pra dentro do albergue, e eu ia falar com a morena. Porque alguma coisa tinha que dar certo nesse raio de cidade! Só que sem encarar a menina disse que precisava muito de algum lugar pra ficar e pedi que ela me indicasse um outro albergue num preço legal. Num sotaque muito estranho e quase que rindo da minha cara, ela falou de um lugar umas duas ruas atrás. Daí eu saí correndo com o rabo entre as pernas me jurando nunca mais entrar naquele lugar. Nope. No way. Damn... Really?!
Realmente tinha um lugar legal e baratinho numas ruas atrás. Dessa vez quem me atendeu foi um gordinho simpático -daqueles que tem cara de cozinhar bem- que me arranjou uma cama num quarto todo amarelo. Isso mesmo, amarelo, yellow. Eu entrava naquele lugar e já começava a cantarolar Coldplay. Era involuntário e depois de um tempo ficou insuportável.
Como o quarto tava vazio, não tive nem que socializar. Então só catei meu ipod, o moleskine e uma caneta num canto da mochila, arrumei minhas coisas por ali e fui pro bar do albergue mesmo. Ver se com uma boa cerveja eu conseguia pensar num plano, ou numa maneira que fosse de conseguir encontrá-la em Londres.
A nossa cidade dos sonhos e uma das maiores cidades do mundo. E ela tão pequena, nem um pouco frágil, escondida atrás de qualquer um daqueles prédios e monumentos históricos.
Agora que eu já estava ali, eu tinha que achá-la. Nem que fosse pra dizer o quanto que eu a odiava por ter me feito uma lavagem cerebral, me tirado do sério, depois sumido feito covarde e como eu sentia falta do seu corpo quente na minha cama e o seu sorriso de manhã. Merda. Mesmo fumando continuava frio pra cacete.
Nota: Romance 01 , Romance 1.2, Romance 1.3
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