quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Eu queria que tivesse sido a primeira vista

Eu queria ter te conhecido no balcão de um bar, enquanto chorava minhas mágoas de um último amor. Você ouviria minhas histórias, mesmo achando chato, só porque não aguentava mais o garoto infantil que queriam te apresentar. Entretanto, nos daríamos bem; nos tornaríamos amigos de infância em horas.
Assim, já de madrugada, com o bar vazio e depois de uma longa conversa filosófica sobre o ser humano e a vida em si, brindaríamos juntos à total descrença no amor.

Também queria que estivesse chovendo. Então, assim que você saísse pela porta do bar eu perceberia que você era a pessoa perfeita pra mim. Iria correndo atrás de você, te alcançaria e nos beijaríamos. Na rua vazia, debaixo da chuva.
Eu até diria 'eu te amo'.

Acontece que eu era o menino babaca que nossos amigos te apresentaram, nem nos gostamos de primeira, só que estávamos tão desesperados por uma história de amor que engolimos a nós dois.

O problema não era você... Muito menos eu. Até porque não existíamos.
Não, não foi bom enquanto durou. Foi mediano e ainda bem que acabou.

Ps: vale lembrar que a primeira vez em que tentei te beijar, você me chamou de cafajeste.

ânsia de palavras

as palavras tomam um gosto ruim
o abrir da boca parece enferrujado
nó na garganta

não sairá uma palavra
e toda a angústia ficará aqui contida

[um pé inquieto a balançar 
e a pergunta insistente:
até quando?]

domingo, 21 de agosto de 2011

O último verão

Foi o pior verão de todos os tempos.

Aquele sol de final da tarde entrava pelas frestas da cortina, deixando a sala com um tom amarelado e um ar abafado. Um ventilador velho assobiava em algum canto, era a cantiga de ninar que embalava seu sono ali no sofá; envolvida num fino lençol, de costas descobertas onde brotavam gotas de suor.

Chegou a noite quente e sem vento, abriu os olhos e contemplou o breu. Acendeu um cigarro e colocou Chico pra tocar. Sentou-se e afogou o rosto nas mãos, respirou fundo, levantou-se e se pôs a dançar sozinha. Rodopiou pela sala por horas.
Também leu um livro inteiro naquela noite. E depois escreveu outro - trezentas e setenta e duas páginas de mágoa e dois maços de sufoco.

Tomou três comprimidos pra dormir de novo. Os três de uma vez só: indolor.
Acendeu só mais um cigarro e voltou para o sofá.
Muito quente... Foi o último verão de todos os tempos.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Efêmera


Iluminada pelo sol a vejo surgir.
Bela, frágil e brilhante. Me encanta.
Fixa meu olhar, como se nunca tivesse visto igual, e sigo...
Meus olhos  ansiosos acompanham seus movimentos para ver aonde vai,
até onde o vento leva,
se ela sobrevive até o fim.

Tão frágil. Preciso senti-la.
Assim, aproximo meus dedos e quase toco aquela superfície brilhosa.
Um brilho oco que se corrói. Ela some.

Se foi e nem pude tocá-la.