Foi o pior verão de todos os tempos.
Aquele sol de final da tarde entrava pelas frestas da cortina, deixando a sala com um tom amarelado e um ar abafado. Um ventilador velho assobiava em algum canto, era a cantiga de ninar que embalava seu sono ali no sofá; envolvida num fino lençol, de costas descobertas onde brotavam gotas de suor.
Chegou a noite quente e sem vento, abriu os olhos e contemplou o breu. Acendeu um cigarro e colocou Chico pra tocar. Sentou-se e afogou o rosto nas mãos, respirou fundo, levantou-se e se pôs a dançar sozinha. Rodopiou pela sala por horas.
Também leu um livro inteiro naquela noite. E depois escreveu outro - trezentas e setenta e duas páginas de mágoa e dois maços de sufoco.
Tomou três comprimidos pra dormir de novo. Os três de uma vez só: indolor.
Acendeu só mais um cigarro e voltou para o sofá.
Muito quente... Foi o último verão de todos os tempos.
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