quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Romance 1.6 - caos

Há muito eu vinha sentindo seu aviso. Agora, o caos estava ali, na minha frente, me dando um tapa na cara.

Bem antes disso, eu estava no bar do hostel, cantarolando Yellow, rabiscando meu moleskine e bebendo uma Guiness. O que me interrompeu foi um barulho abafado que me cortou a linha do desenho e fez borrar o pensamento, a origem dele foi um copo que alguém havia posto com força na mesa pra me chamar atenção. Analisei: era só um líquido transparente (ah, duvidava ser água!) e, considerando aquilo uma oferta, virei aquela dose de uma vez - senti aquilo descer forte, rasgando minha garganta - sem fazer careta. Só depois fui ver quem havia me oferecido a bebida.
- Well, that's something. Want another one? Quem falava era uma mulher (ou menina?) de traços indianos, com um sorriso de dentes bonitos e alinhados.
- No, thanks. But I'd like to know what I've just drank.
- So you have to talk to me to get that information.
- Alright. Respondi com o melhor que pude fazer de um sorriso.
Tomei mais umas três doses daquilo e nunca fiquei sabendo o que era, só que era bom e que me deixava embriagada bem rápido. Também fiquei sabendo que aquela mulher era modelo e tinha nascido no Camboja, ela tecnicamente havia falado da vida toda dela, mas eu só cheguei a pegar isso do todo, de resto eu só acenava com a cabeça e sorria. Acho que, além da bebida grátis, o que me interessou nela foi o falar muito de si mesma sem esperar que o outro correspondesse.

Aliás, acho que nesse tempo que ficamos "conversando" ela só me fez uma pergunta que precisasse de uma resposta:
- I'm going to a party, join me?
Primeiro eu pensei: HELL NO! Eu já estava bêbada o suficiente e podia ir para o meu yellow submarine submergir em um sono profundo. Só que ao olhar para meus rabiscos e ver que o meu desenho era uma boca, seios - que eu conhecia muito bem - mais a frase 'We can be heroes'... Não tinha como me enganar, eu precisava de algo mais forte que aquela água rasgante que eu havia tomado. Subi para guardar minhas coisas, por um casaco e catar alguns poucos pounds e meu documento que estavam guardados na mala.

Pegamos o underground em Bayswater. Não estava cheio, mas isso não impedia que os poucos que estavam ali se sentissem um pouco ofendidos com a pole dance que a modelo cambojana ensaiava pra mim se esfregando naqueles canos vermelhos no fundo do vagão.
- I've just realised that I don't now your name yet, Cambodia girl.
Ela parou de rodopiar e veio sentar ao meu lado; sorrindo, com o rosto bem próximo ao meu, disse que eu podia chamá-la do que eu quisesse e que ela se certificaria que só eu poderia chamá-la daquele jeito e yadda-yadda.
- No, I prefer we get to the first name basis.
- Okay, so call me Greta. How do you want me to call you?
- My name: Clara.
Fomos até a estação de Parsons Green, saímos do metrô e passamos a andar por ruas tranquilas emparelhadas pelas tradicionais casas londrinas - o que me era mais agradável porque eu podia fumar e apreciar a cidade. Não fazia ideia do quão longe havia ido parar, mas pela vontade que eu estava de um cigarro, devia estar consideravelmente longe do albergue. Chegamos em uma casa que parecia tremer por fora, com luzes coloridas escapando pelas janelas e sons abafados querendo explodi-las. Pelo visto, era ali que estava acontecendo a tal festa.
Tocar a campainha parecia inútil e ninguém veio nos receber, Greta simplesmente abriu a porta e entrou me puxando pela mão, o som era tão alto que parecia me empurrar de volta para a rua. Estava tocando um rock meio eletrônico, uma coisa meio estranha que as pessoas dançavam se balançando freneticamente. Ainda me segurando pela mão, ela me guiou no meio da multidão dançante até onde se encontravam as bebidas, misturou o conteúdo de duas garrafas e me entregou um copo, bebi e tinha gosto de uísque. Eu não gostava de uísque, eu não gostava daquela música, eu queria ir embora, eu queria voltar para o Brasil.

Tentei voltar para o meio das pessoas, mas a cambojana me agarrou pelo pulso sorrindo, como se não tivesse reparado minha tentativa de fugir, e foi me puxando para a parte mais interna da casa. Eu devia ter feito ela me soltar, cuspido o uísque e saído dali, só que aquela mão estava firme no meu pulso e pra a minha instabilidade aquilo foi como um carinho, então eu segui. Andamos mais um pouco pela casa até um canto onde algumas pessoas se reuniam sentadas em poltronas e esparramadas pelo chão, Greta foi falar com algumas delas e eu, que não queria falar com ninguém, me joguei em uma das poltronas. Reparei que aquela bebida ruim ainda estava na minha mão e virei o resto em uma só careta; depois acendi um cigarro.

Lembrei de quando tinha tentado parar de fumar com ela. Tinha sido no último inverno, quando ficamos com tanta tosse que mal conseguíamos nos beijar. Conseguimos ficar só uma semana sem cigarros - ou pelo menos foi o que dissemos uma para a outra, porque eu acendia um "último cigarrinho" todos os dias e sabia que ela fazia o mesmo. Foi patético, não eramos mais o mesmo casal sem nossas manias irritantes de  fumantes. É, não eramos mais um casal.
Despertei dos meus pensamentos quando senti alguém sentar no meu colo, era Greta, carregando uma bandeja de prata.
- Want some?
- No, I don't... It's... It's not my kind of stuff.

A verdade é que desde de Pulp Fiction eu tinha medo de terminar em uma poça de sangue e vômito.
- Oh, come on... - Greta jogou a cabeça sobre a bandeja e inspirou, depois virou-se para mim - Go ahead.
E eu fui.

Então eu bebia uísque da garrafa e puxava Greta até onde a música tocava mais alto. Agora eu entendia porque as pessoas se balançavam ouvindo aquilo - e fazia igual. As luzes coloridas pareciam encher a minha cabeça com suas cores e me faziam esquecer até do motivo que tinha me levado à Londres. Devia ser a quinta música que dançávamos quando a modelo passou a se aproximar mais, a dançar se encostando em mim, até que, pondo seus braços em meu pescoço, ela me beijou.

Seus lábios eram finos demais, nossas bocas estavam secas e geladas, era como se eu beijasse areia. Aquele beijo me deixou sóbria. Afastei os braços da garota e saí dali, fui andando tentando me orientar e achar a saída; pouco depois já estava na rua, com o ar gelado castigando a minha pele quente. Me apoiei nos joelhos e respirei ofegantemente, olhei para a rua e não reconheci o caminho que havia tomado para chegar lá, sentindo como se meu corpo inteiro tivesse virado gelo e fosse quebrar a qualquer momento, sentei no meio fio com a cabeça enterrada entre os joelhos. Eu só queria chorar até ficar seca, gritar até a última nota de todo aquele desespero que tomava conta de mim; mas dei preferência a sair dali antes.
Entrei de novo naquela casa e voltei até onde havia deixado Greta, encontrei-a não muito longe já enroscada no pescoço de outra pessoa. Levei-a até a rua arrastada pelo braço.
- You're getting me out of here. Now.
Ela cambaleava apoiada no meu ombro e, sorrindo, perguntou onde eu queria que ela me levasse, respondi que ela podia me levar para qualquer lugar depois que fôssemos ao meu hostel, mas que ela teria que me levar até lá porque não lembrava o caminho. Greta concordou com a cabeça e me guiou pelas ruas, chegamos a um lugar um pouco mais movimentado onde passavam alguns táxis e pegamos um.

A viagem afinal não foi tão longa quanto o esperado e em pouco tempo reconheci o começo da rua do meu albergue, despertei a menina que havia dormido no meu colo e dei as indicações finais ao motorista de onde parar. Segurando Greta bêbada pela cintura, saí do carro.
Ali, na minha frente, eu reconheci o rosto que eu mais desejei ver por meses.
Meus olhos se encheram de água, senti meu sangue sumir do corpo e desacreditei no que estava vendo; até a aparição dizer:
- Oi, Clara.
Ela saiu correndo e eu não soube o que fazer, larguei a menina que estava nos meus braços e soltei toda a minha angústia e desespero em um grito só:
- CAMILA!

Só que ela não parou, então me pus a correr ainda gritando o nome dela, não desisti nem diminui a velocidade até meu braço esticado conseguir alcançá-la. Agarrei sua mão com mais força do que pretendia, mas consegui fazer com que ela parasse e se virasse... Só para me dar um tapa na cara.




Nota: Romance 01 , Romance 1.2, Romance 1.3, Romance 1.4, Romance 1.5

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