Acordou num pulo, suada. O completo breu que a envolvia deu medo por alguns confusos segundos. Mas como assim? onde é que eu to? Em menos de um minuto percebera: havia dormido em cima do livro, anoiteceu, e ela continuou lá. Babando de cara em “Pergunte ao pó” e agora devia estar com a merda de uma marca horrenda, sentia isso enquanto esfregava forte o rosto com as duas mãos e se espreguiçava.
Oh, céus. Não sei nem mais que dia é hoje e se tinha alguma coisa pra fazer, mas foda-se.
Tateou a bancada até achar o maço de cigarros que havia deixado por ali, afinal, não havia quem se importasse, certo?
(Unsuspicious nobody cares for you... You're so fucked up again)
Levou o frágil cigarro aos lábios e pendurou-o ali, levemente, enquanto caçava os fósforos; só aquilo já lhe trazia alívio. Quando riscou, bastou aquele pouco de luz pra fazer seus olhos doerem. Merda. Fez uma careta e cerrou-os instintivamente, depois abriu com calma; ficou observando aquela pequena chama dançar na ponta do palitinho.
(Try to tell yourself you're not insane)
Também olhou para seus dedos iluminados pelo fogo. Sério que havia roído tanto as unhas nos últimos dias? Todos eles apresentavam aquele resquício de sangue nas feridas que se formavam após morder e arrancar a décima quarta camada de pele.
Acendeu finalmente o bendito cigarro e foi para a janela. Deu um bom trago e soltou vagarosamente toda aquela fumaça, quase como se estivesse encarregada de levar mais alguma impureza para fora dela. Esse é para aqueles que foram parar de uma hora pra outra do outro lado do Atlântico. Vai, leva embora contigo todas essas lembranças, minha filha - não sabia mais se falava com a fumaça ou com o passado.
(You fool, I hate you sometimes)
Percebeu que sua boca doía, sinal de que andara trincando a mandíbula sem nem perceber. Dor dos infernos.
(It's drippin' off your face, and you're losin' your precious mind)
Outro trago. Ela também devia estar fumando na porra de um albergue qualquer, nesse exato momento, e pensando em como a vida dela tava melhor lá. Ótimo. Não tivesse se infiltrado tanto na minha antes e eu te deixava ir pra onde quer que fosse fazer a merda que quisesse com a sua. Vadia. Filha da puta. Amor. Merda.
(Send me a postcard if you get that far. You got a couple pennies in your rusty jar)
As coisas estavam começando a ficar muito úmidas. Levando o cigarro novamente a boca com as mãos trêmulas deu mais uma tragada cheia e foi como se toda aquela fumaça se transfigurasse em mãos que apertavam sua garganta sufocando-a.
Porra! Não era pra essa merda relaxar? Não era pra você estar aqui?
(Ooh you're such a slut sometimes)
Com raiva, deu um peteleco no que restava do cigarro e ficou olhando a elipse que o fogo desenhava no ar enquanto ele caia em queda livre. Um tanto sedutora - a queda livre. O seu famoso “aviso do caos”.
(It's drippin' off your face, and you're losin' your precious mind)
Voltou-se para dentro, pegou o maço em cima da mesa e jogou os cigarros pela janela.
“- É chegada a hora, amor. Adeus.”
(You're losing your mind)
Nota: Wicker Chair, Kings of Leon e ROMANCE 01 - Mayara Barros
Faço minhas as palavras da Clarah - que você sabe quais são - e só torço pro contexto continuar diferente. Afinal, formamos uma boa dupla, moça.
ResponderExcluirp.s. KOL É MUITO AMOR.
Muito bom. Gostei de como o cigarro é a personificação do sentimento, tanto de resignação quanto de raiva, ou fuga. E a "décima quarta camada de pele" me voltou a imagem de Cisne Negro.
ResponderExcluirA fumaça do cigarro está em tudo, desde na ideia, quanto no texto, e até no layout do próprio blog. Criou o clima.